Ninfas e Sátiro [William-Adolphe Bouguereau]

sexta-feira, 18 de março de 2011

Os BRICs, a Alemanha e a Líbia

[Uma especulação geopolítica, para muito além da conversa mole sobre ambições por assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU]

Na votação de ontem do Conselho de Segurança da ONU, impondo a zona de exclusão aérea sobre a Líbia, houve um fato que não passou sem registro: os BRICs – Brasil, Rússia, Índia e China – votaram unidos (optaram pela abstenção).

Além dos BRICs, só a Alemanha votou dessa forma, o que também não pode passar despercebido. Terá a Alemanha, desse modo, sinalizado que pretende uma aproximação mais íntima com os BRICs?

O termo BRIC foi criado em 2001 por Jim O’Neill, então economista-chefe do Goldman Sachs. Na época, tratava-se apenas de juntar em uma sigla os países cujas economias, somadas, tenderiam a se tornar, em futuro não muito distante, mais importantes que o atual grupo de países desenvolvidos.

Como se pode ver com mais detalhes em outro texto deste blog – “O Brasil é a Sétima Economia do Mundo" –, os 10 maiores PIBs do mundo em 2010, pelo critério da paridade de poder de compra (PPC), foram:

1º Estados Unidos
2º China
3º Japão
4º Índia
5º Alemanha
6º Rússia
7º Brasil
8º Reino Unido (Grã-Bretanha)
9º França
10º Itália

Os BRICs ocupam quatro das sete primeiras posições. Com a Alemanha, o número sobe para cinco.

O curioso dessa história é que, ao criar o termo BRIC, Jim O’Neill fez ‘cair a ficha’ para estes países, e acabou instigando-os a se aproximar politicamente.

E agora a Alemanha, que possui a economia de longe mais forte e mais dinâmica da Europa, parece dar sinais de que quer fazer parte da patota. Já deve estar de saco cheio de ser a 'emergência financeira' da União Européia.

Além disso, a Alemanha sempre teve uma quedinha pelo Leste (que, por aquelas latitudes, vai da Europa Central ao Mar da China, passando pelo Oriente Médio). Só que agora a Alemanha precisa perseguir seus objetivos por caminhos pacíficos, na base das parcerias. Porque o mundo mudou.

A Alemanha, diga-se de passagem, costumava ser classificada dentro da Europa Central, e não da Ocidental. 

Por outro lado, também merece registro, nessa votação sobre a Líbia, a ânsia da França e do Reino Unido para intervir militarmente.

Como não dá para acreditar que seja por solidariedade ao povo líbio, fica a suspeita de que esses países, com economias decadentes, estão sonhando em reconstituir, com algum formato novo, seus impérios coloniais na África, numa tentativa desesperada de se manterem importantes no cenário mundial. E, com esse objetivo, tentam tirar partido da confusão reinante no mundo árabe.

Mas há um outro aspecto nessa tentativa que também não pode passar em branco: parece que os Estados Unidos, como na 1ª e na 2ª Guerra Mundial, estão vindo em socorro das pretensões dessas potências decadentes.

A explicação parece ser a mesma: manter intacta a arquitetura do chamado 'Ocidente'.

E pelo visto até Portugal quer surfar nessa onda, porque também votou com o 'Ocidente'. Angola e Moçambique que se cuidem. Parece piada, mas não se deve esquecer que o colonialismo português na África foi o primeiro a surgir e o último a cair. Só caiu há pouco mais de 30 anos, quando Portugal viveu a sua 'primavera lusa'. Um tempo que já ficou para trás. Sonhar não custa.

Os BRICs e a Alemanha, porém, deixaram claro que não gostam dessa arquitetura.

Mas, como não têm a mínima condição de encarar militarmente o Império, vão ter de engolir o sapo. 

E o Império sabe disso. Sabe que tem que organizar o 'Ocidente' agora, antes que a China se torne uma força gigantesca, ainda por cima formando um bloco com os outros BRICs e com a Alemanha.

Como diz o povo, 'o tempo ruge'.



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P.S. Embora este seja um texto sério, não custa, para não perder a viagem, mostrar uma piada com a foto acima, encontrada por aí pela web:





Um comentário:

  1. Não acredito que a realidade esteja muito longe de seu raciocínio. Pois em futuro próximo, os EUA manterão o primeiro lugar no PIB, mas os BRICS e a Alemanha virão a seguir...e o outro é o Japão, que diga-se de passagem não morre de amores pelos EUA.

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